quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Acordou num sobressalto, às 15 horas de um domingo sem-graça, com o trim-trim insistente do telefone do apartamento. Era Rui, com sua voz tímida e inconseqüente. Marcaram um encontro, às 20 h. Mas e agora, o que lhes restava? Estariam juntos, enfim! Anos e anos depois. Lágrimas e lágrimas depois. Sexos e sexos depois... Juntos dali a pouco, um do lado do outro, num bar qualquer, pra relembrar os velhos tempos. Que tempos? Não houveram tempos – pensou - houveram promessas não cumpridas e cabaços perdidos. Mentira! Houveram as lembranças também! Lembranças dos porres em vão pra esquecer, lembranças das putas pagas por boquetes mal-pagos, lembranças das brigas, dos foras, dos erros, das saudades, das dores – lembrou-se com tristeza!
Onze longos e tortuosos anos os separaram! Além dos anos, cigarros, conhaques, corpos, punhetas, lágrimas, feridas abertas, escancaradas, pulsantes! Conheceram-se no fim da adolescência, início de faculdade. Hoje, eram adultos maduros: um separado, com dois filhos; o outro solteiro desde sempre, sozinho no mundo, com seus diplomas e seus livros e seus cd’s e seus filmes e suas quaisquer-coisas-cult e seu arsenal de acessórios eróticos e suas viagens-de-trabalho e seu apartamento imenso, abarrotado até a tampa de uma solidão crônica.
"Não vai me contar como me achou, Rui?"
"Encontrei um velho amigo da nossa época de faculdade que havia trabalhado pra você em Londres. Ele me disse que você voltaria pro seu apartamento aqui do Brasil. Não foi difícil convencê-lo a me dar seu endereço... Menos difícil ainda foi conseguir o número do seu telefone e..."
"E o resto eu já sei. Você me ligou e nós marcamos um encontro. Pois bem, cá estamos! E depois de pelo menos 15 minutos de um silêncio mortal, eu te pergunto: o que você quer?"
"Calma, Dênis, eu só quero conversar."
"Ora, ora, que coincidência você me procurar pra conversar depois de onze, ON-ZE anos, justo depois que se separou da sua mulher!"
"Como sabe que eu me separei?"
"Isso não vem ao caso. Quero saber o que você quer de mim."
"Já disse, só quero conversar."
"Eu não tenho nada pra conversar com você!"
"E por que veio então?"
Silêncio. Sorriso vitorioso de Rui, aquele sorriso meio canto-de-boca que Denis tão bem conhecia. Encabulado, Denis acendeu um cigarro e Rui retomou a conversa:
"Para de me atacar... Só assim eu vou poder parar de me defender e vou poder conversar com você de..." Pigarreou e continuou, cabeça erguida: "De amigo para amigo."
"Are you kidding me?" Disse Denis, quase num grito. "Amigo pra amigo?"
"Sim, de amigo pra amigo!"
"Pois bem, conversemos então!"
Conversaram. Conversaram muito! Beberam. Beberam muito! Entre doses e sutis inícios de discussão, Denis foi se desarmando, se abrindo, deixando-se levar pela nostalgia! Na mesa de cinzeiros e copos, jogaram dores, prazeres, anseios, vergonhas, histórias... Eis que chegaram ao assunto que os unia e, quase num soluço, veio o lamento de Rui.
"Éramos jovens e eu não sabia de nada. Aaaah se você soubesse o quanto me arrependo de ter ido embora...!"
"Agora não adianta arrepender-se!"
"Não me culpe. Nós éramos jovens... Meus pais jamais aceitariam tudo aquilo. Eu não consegui segurar a pressão!"
"Não me venha com essa. Eu também era jovem e meus pais também não aceitariam. Aliás, não aceitaram! Eu contei tudo. Eu tentei ir atrás de você. Fui à sua casa, corri atrás e aí, o que eu descobri? Descobri que você tinha se casado, tinha ido embora pro interior pra não... Como foi que seu pai me falou mesmo? Ah, pra não cair-em-desgraça-de-novo!"
"Ah, Denis, se você soubesse... Se você soubesse o quanto eu chorei, o quanto eu sofri, o quanto eu morri nesses anos todos! Continuei o mesmo gay de sempre, só que casado com uma mulher que me deu duas filhas lindas! Continuei comendo machões enrustidos naquele interior sujo e preconceituoso! Continuei lembrando de você em cada dia da minha vida. Continuei procurando notícias suas em todo lugar. Continuei..."
"Chega, Rui, já passou! Isso é passado. Passado que eu há muito joguei no lixo."
Conversaram mais... Olharam-se... Sentiram-se... Mesmo de longe, mesmo tão perto! Dali a pouco, estavam bêbados, rindo às paredes, abraçando-se feitos dois antigos amigos de faculdade... O bar estava por fechar quando Denis pediu a conta. Pagaram. Levantaram-se. Despediram-se no estacionamento, cada um em busca do seu respectivo carro. Rui sentou-se no banco, pôs as duas mãos no volante e quase chorou, quando ouviu algo bater no vidro. Era Denis, ofegante.
"O que foi, cara, aconteceu alguma coisa?"
"Vamos lá pra casa comigo, é aqui perto, você vai me seguindo. Sua casa deve estar longe e você está muito bêbado."
Foram. Chegaram. Subiram. Denis tirou o tênis, a calça, a blusa... Deitou-se de cueca, como sempre fazia. Antes, mostrou a Rui o apartamento, disse onde era o banheiro, a geladeira, disse-lhe pra ficar à vontade e mostrou-lhe um sofá-cama imenso, "você dorme aqui, ta?! Boa noite"
Deitou-se. Rolou pra cá. Rolou pra lá. Quis levantar-se e dizer ‘eu te amo’. Quis vomitar. Quis chorar. Quis morrer. Em minutos, o sono e a embriaguez tomaram-lhe conta e, quando estava quase adormecendo, sentiu Rui deitar-se na cama e, com uma voz pecadora, arrependida, pacífica, livre, disse:
"Posso ao menos dormir abraçado com você?"
Perceberam que existem coisas que nem Deus, nem a distância, nem o tempo podem separar...

*Conto livremente inspirado no conto Pela Noite, de Caio Fernando.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

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Vai lá, passarinho. Conta pra ele que 'tá difícil viver assim. Vai, voa logo!
Diz pra ele bem baixinho que não tem graça procurar em outros corpos o que só ele pode me dar. Pega a mão dele e entrega aquele bilhetinho que eu escrevi no bar com um trecho da Clarice. Leva um pouco do meu perfume pra ver se ele lembra de mim.
Leva o som do meu sorriso que ele tanto ouviu nas tardes à toa.
Leva o gosto do meu corpo pra ver se ele volta.
Aproveita, passarinho, e leva minha ressaca, leva minha lágrima, leva minha alma.
Me leva com você... Me esconde na tua bolsa, passarinho. Juro, não dou trabalho.
Eu sei, passarinho, eu sei que já tem muita coisa pra levar. Tá bom, tá bom, eu fico...
Mas vá, passarinho, não te esqueças de nada. Na volta, traga na bagagem um pedaço daqueles cabelos ou uma gotinha do perfume. Não esquece, passarinho. Agora vai, voa rápido que o sangue não espera pra escorrer. [...]
Ei, passarinho, porque estás voltando? Não faça isso, passarinho, não tens pena de mim?!?!?

*Acontece, pobre menina, que eu só posso voar pra lugares de verdade... Desculpe, mas passado não é lugar, é tempo.

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P.S.'s:

*Esses dias, encontrei assim, sem querer, um olhar perdido num espelho de bar... Uma pena tê-lo perdido!

*Ei, seu moço do cabelo grande, eu também gosto de clichês...

*E pro moço que mora longe, uma paráfrase... "Na pressa de encontrar, nem sei o quê!"

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

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Ei, pra quê essa carinha? Desfaz essa feição de tristeza, rapaz, as coisas andam bem piores pra mim, pode apostar! Pra quê ficar sem jeito por causa de uma coisa tão comum? Ninguém sabe melhor que eu o quanto o passado é persistente! Vai, baiano, abre logo um sorrisão, levanta essa cabeça e segue teu rumo, deixa que a parte mais pesada eu carrego nas costas. Não há motivo para tamanho pesar... Já aguentei tantas toneladas nessa vida-de-meu-deus que uns quilinhos a mais não vão me derrubar.
Olha, bonito, eu confesso que o peso de ter que ser compreensiva demais desanima e desaponta bastante. Ter que dizer a todo instante 'tá tudo bem' e cinicamente sorrir como se nada tivesse acontecido é ainda mais torturante. Mas nem só de amarguras é feita essa vida. Tudo há de se resolver e, do fundo do meu coração, rogo para que tua escolha tenha sido a certa. É só uma questão de um pouquinho de tempo... Quem sabe algumas semanas? Alguns dias? Algumas cervejas? Alguns sexos? Alguns segundos? Hã? Qual era o assunto mesmo?

P.S. interno:

*Uma dívida ficou pendente e, ao que me consta, os juros deixaram-na, pelo menos, 50 vezes maior. Pelo que sei, débitos financeiros demoram 5 anos pra prescrever e, após esse prazo, o nome fica de novo 'limpo na praça'. No nosso caso específico, a dívida prescreve quando o contrato entre os usuários do serviço é encerrado, logo, meu nome continua limpo!
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*Nosso amigo Bergson foi de grande valia na minha vida.
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*Obrigada por cada segundinho, 'baiano'!

P.S.'s pra geral:

*Ááááááárina, minha princesa do cerrado, estou te devendo um zuper-mega-apertadíssimo-abraço!!! Muitíssima sorte pra você em Ouro Preto. Tudo vai dar certo. Amo você!
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*S.E.L., Branquinha, Rodrigo, Carlos... Obrigada por voltarem por essas bandas. Gosto de ser lida por vocês. =)
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*Thaty, Ray, Camila e Bruna, muito obrigada por sempre passarem por aqui.
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*Leila, saudades.
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*Camila, boa sorte em Israel, você vai fazer falta.
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*Srta. Nana, seja sempre muito bem vinda.
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*Pronto, cabô. =)
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sábado, 4 de julho de 2009

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De repente eu fui um cego que via através do tato e sentia o que ninguém jamais sentiu.
De repente eu era um ogro, isolado no meio do seu castelo-abandonado-de-conto-de-fada.
De repente eu fui só um mafagafo do imaginário infantil, que só servia como trava-línguas pra frustrar dislexos e afins.
De repente eu fui uma puta suja, de pernas abertas, cigarro nas mãos, garrafas no chão.
De repente eu fui uma estudante frustrada, comemorando seus fracassos acadêmicos dia após dia.
De repente eu fui um boêmio dos anos 70, embriagando-me ao som de Nelson Gonçalves.
De repente eu morria, chorava, sorria, trepava, de repente eu vivia.
De repente eu passava no espelho e via que era nada mais que eu, que de repente era só um nada!
De repente o despertador começou a berrar e mais uma segunda feira se iniciava!
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P.S.: Há muito venho sentindo falta de algumas pessoas que costumavam vir aqui mais vezes... Peço que voltem a me ler!

sexta-feira, 5 de junho de 2009

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-E aí, Clarinha, quê que cê manda hoje?
-Me vê uma cerveja, por favor.
-Antártica?
-Anrãn.
-Quantos copos?
-Dois.
[Silêncio]
-Ah, e me vê 10 fichas de sinuca também!
-Pódeixá!
-Valeu, Chico.
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-E aí, preparado pra perder, meu caro Flávio?
-E desde quando tu joga sinuca melhor que eu, Clara?
-Aguarde e verá, companheiro! Tenho jogado to-do-san-to-dia!
-Ai, ai, viu!? Quer começar?
-Quero... Bola 13 na caçapa do canto!
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[Tacada bonita, forte, firme... Plaaaah! Bolas espalhadas, as ímpares estrategicamente perto das bocas e a 13... Na caçapa do canto!]
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-Ah, bonitinha, isso não vale. Você arrumou as bolas pra que as ímpares ficassem perto das bocas, né, safada?
-Ué, você deixou eu arrumar as bolas e ainda perguntou se eu queria começar. Burrice tua, parece até que é iniciante!
-Vátománocu!
-Até iria, mas fui embuída de ganhar umas partidas de sinuca de um viadinho! [Risos] Bora valendo as cervas?
-Demorô, franguinha escrota!
-Cê tá tão amoroso hoje. Posso parar de ganhar, se vc preferir.
-Toma tento, criatura, foi só uma tacada!
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[Tempos depois, décima segunda cerveja, décima fixa... 7X3]
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-Rá! Na sua cara, sua bichinha de merda! Vai ter que pagar as cervas!
-Ô guria cagada da porra. Tem três vidas que eu não sei o que é perder!
-Opa! Revanche?
-Tenho que ir nessa, ô aspirante a alcólatra! Tenho que me esforçar agora pra ter uma deliciosa noite de sexo com meu novo namoradinho. Fica aí, se gabando porque ganhou de mim! Cuidado pra não ficar pra titia, hein? Sorte no jogo...
-Vá se fuder, porra! Cê não quer é perder de novo! Nem mais umas fichinhas?
-Não, não, é sério mesmo, hoje é meu dia de ser passivo! A-do-ro!
-Então tá, né!? [Suspiro]
-Tu vai também?
-Não, vou ficar.
-Belê. Vou deixar tudo pago aí, a gente se fala depois.
-Tá.
-Beijo.
-Beijo.
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-Vai mais uma aí, Clarinha?
-Pó descer, Chicão.
[Silêncio]
-Me vê um traçado aí, também. Com 88, por favor!
-Prájá!
-Valeu.
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Na mesa, uma garrafa, dois copos, uma folha, uma caneta e um trecho de Nelson Gonçalves: "Sou apenas uma sombra que mergulha, num oceano de bebida, o seu passado!
Faço parte dessa estranha confraria do vermuth, do conhaque e do traçado...!"
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-Fecha tudo aí, Chico!
-Cinco conto pra tu, Clarinha!
-Taí, mano, valeu.
-Vem aí amanhã.
-Se tudo que eu tô planejando der certo, vou passar uns tempos sem vir aqui.
-Beleza então, qualquer coisa tamo aê.
[Dois segundos depois]
-Clara, tu deixou um papel na mesa.
-Opa, é besteira, pode jogar no lixo!
-Tanquilo.
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-Poxa vida, Flávio, meus pêsames! Jamais imaginaria que a Clara fosse capaz de uma coisa dessa!
-Cara, não dá pra acreditar... Eu joguei sinuca com ela ontem a noite. Puta que pariu, que merda! Porque ela não me falou nada antes...?
-Falou o quê, meu anjo?
-Nada não, coisa nossa, deixa pra lá!
-Vem cá, vem...
[Um abraço demorado, lágrimas, soluços...]
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No quarto de Clara, seu corpo estático, pendurado numa corda... O som estava ligado no repeat, com Emily Heines cantando sua triste The last page. Jamais imaginara sentir tamanha dor. Não pôde suportar o sofrimento de ver o grande amor de sua vida sendo traçado por um brutamontes qualquer...!
No chão, uma garrafa de vodka vazia, um cinzeiro lotado e uma carta, com um trecho de Caio Fernando:
"Éramos diferentes, éramos melhores, éramos superiores, éramos escolhidos, éramos mais, éramos vagamente sagrados. (...) Ando angustiada demais, meu amigo, palavrinha antiga essa, a velha angst, mas ando, ando, mais de duas décadas de convívio cotidiano... Tenho uma coisa apertada aqui no meu peito, um sufoco, uma sede, um peso... Ah, não me venha com essas histórias de atraiçoamos-todos-os-nossos-ideiais, eu nunca tive porra de ideal nenhum, eu só queria era (...) ser feliz, cara... Gorda, burra, alienada e completamente feliz, com você! Podia ter dado certo entre a gente, ou não, eu nem sei o que é dar certo, mas naquele tempo você ainda não tinha se decidido a dar o rabo(...).
Eu te amo, Flávio. Desculpe se não pude suportar tamanho sofrimento. Padeci à dor. Vê-lo assim, tão perto e tão longe, foi demais pra mim. Sempre quis tê-lo como meu homem. Desculpe, fui fraca. Um abraço apertado, da sua sempre amiga, Ana Clara."

domingo, 17 de maio de 2009

Uma pitada de seriedade nem sempre faz mal!

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Uma vez me disseram que compromisso é algo que deve ser levado à sério. E é mesmo, hoje eu sei! Só que as coisas, ultimamente, andam tão superficiais, tão momentâneas...
Melhores amigos são feitos e desfeitos e refeitos numa facilidade tamanha que até os inimigos têm se misturado ao hall dos inseparáveis! Engraçado isso... Num tempo em que dinheiro anda tão difícil, onde basicamente só o saldo bancário vale como pré-requisito e que, exatamente por isso, as pessoas deveriam apegar-se mais a amizades e amores, acontece o extremo oposto. As relações andam perdidas num caminho sem volta. E quem ainda insiste em apegar-se à compromissos e à 'sua palavra de honra' fica do lado de lá, sozinho, exposto a um sofrimento e a um esforço psíquico que não têm medidas! Fazer jus ao peso de suas palavras é uma questão de honra mesmo.
Entendam: não me refiro aqui à posturas monogâmicas ou a algum tipo de veneração-incondicional-frente-a-um-amigo... Refiro-me apenas ao fato de cumprir o que foi combinado ou prometido, coisa que não é tão difícil, ora bolas! Se não consegue seguir o que diz, não o faça! Palavras apenas, palavras pequenas, palavras ao vento ainda são passíveis de serem levadas à sério por quem ainda acredita na credibilidade alheia!
Uma pena, é esforço vão, jogado a esmo.
Alguns dirão: 'Ora, pra quê tamanho exagero? Essas coisas acontecem!'
Eu, no mínino, darei uma gargalhada-sabor-ironia. [Ironia é meu mecanismo de defesa... É melhor do que chorar!]
Se não se pode acreditar nem na palavra de quem está próximo, como confiar na palavra de quem você não conhece?
Os acontecimentos dos últimos dias levaram-me à tal reflexão que, por sua vez, revelou-se de importância-mor! Fizeram-me rever minhas perspectivas, minhas posturas, meus pressupostos. Mais uma vez, entendam: não estou aqui fazendo apologia à moral, tão pouco pregando algum tipo de postura a ser seguida. Estou apenas explicitando a minha opinião frente ao assunto.
Mas, enfim, são escolhas. Todos temos o direito de fazê-las, desde que tenhamos a consciência de que tais escolhas são intrínsecas às suas consequências. Não há linha, mesmo que tênue, que separe ambas, fato! Rezemos aos deuses do bom-convívio-social que todos sejam maduros o suficientes para entender essa realidade.
Fizeram suas escolhas... Pois bem, farei as minhas: contato eu não quero nem tão cedo. E tenho dito!

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sexta-feira, 1 de maio de 2009

Só mais um...

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As coisas se perderam, sumiram na imensidão de um espaço abarrotado de vazios. Esvaíram-se, viraram pó, simples como um passe de mágica.
Vraaap! De uma vez só esse pó todo foi reincorporado àquele corpo e junto com ele meia garrafa de Vodka barata e um maço de filtros vermelho. Missão cumprida: o vazio fora preenchido com o próprio vazio. Novamente sentira-se vibrar, mesmo tendo a face toda anestesiada.
Foi uma noite relativamente normal, não fosse pela esperança que subitamente dilacerou toda a cólera, todo o rancor, todo o nojo, todo o abandono... Lembrara-se de sua gravidez! Um sorriso franco, embora tímido, iluminou por um instante aquela quitinete apertada, munida apenas de uma cama, um guarda-roupa improvisado, um fogão, uma geladeira e um som, além do cheiro e do gosto de sexo que passeava livre por cada milímetro daquele antro de maus orgasmos, noites mal-dormidas, lágrimas engolidas à seco junto com conhaques, traçados e litros e litros de porra!
De súbito recordara-se dos dois abortos que fizera: superdosagem de calmantes com alguns socos na barriga no primeiro caso e citotec no segundo... Qual modo escolheria dessa vez? Mais um sorriso na face: a esperança voltara! Não se sabe por que diabos, decidira não tirar aquele filho... Mas o que faria? Quem seria o pai? Sobreviveria de quê se largasse a prostituição?
Primeiro passo: largar cigarros, bebidas e drogas... Olhou em volta e imaginou o desespero dançar na sua face: eram 60g da cocaína mais pura, duas carteiras de cigarro fechadas, meia garrafa de Vodka e cinco latinhas de cerveja na geladeira. O que fazer com tudo isso? Fumou a última carteira, tomou a última latinha, bebeu as últimas cinco doses da Vodka e cheirou as sete últimas carreiras – as mais grosas de sua vida. O que sobrou, deu a um velho mendigo que residia na marquise de seu prédio – talvez morasse lá há mais tempo que o próprio prédio. A cocaína, claro, vendeu pra um de seus clientes sujos! Nos primeiros dias que se seguiam, acordava sempre receosa, talvez arrependida: “Porra, o que eu vou beber agora?”.
Sobrevivera a primeira semana, a segunda... Durante esses 14-quase-15 dias, arranjou um (sub) emprego: 12 horas de segunda a segunda como balconista-faxineira-faz-tudo numa padaria. Havia largado seus antigos clientes, mudou de quitinete – pra uma mais barata, mais perto do emprego e mais limpa, uma vez que ao menos o cheiro de sexo não fora convidado para o novo recinto e a fumaça do cigarro fora substituída por incensos fortemente adocicados... Mas aí chegou a sexta-feira da terceira semana... Ela pre-ci-sa-va de cocaína, de álcool! Não agüentou: chamou três ex-colegas de profissão, que se encarregaram de levar as bebidas, enquanto ela foi imbuída de arranjar o pó. Cinqüenta ‘conto’ fiado, pra esquentar! Foram três carreiras de uma vez pra tremedeira ao menos diminuir. Cheiraram e beberam feito loucas...
O relógio marcava 03:27 a.m., o pó havia acabado e ainda lhes restavam meio litro de traçado e uma garrafa de whisky barato. Parênteses: puta não tem dinheiro pra nada, mas quando se fala em bebida e perfume, sai dinheiro até do cu!
Decidiu sair pra pegar mais pó... Mais cinqüenta ‘conto’ fiado... 04:30 da manhã, 05:00, 06:00, 06:30...
“Caralho, tenho que ir trampar”
Não conseguiria nem que quisesse... E não queria!
“Ah, depois eu me resolvo com o patrão... Ele sempre olha pra minha buceta de forma diferente mesmo.”
Riram sabe-se lá por quanto tempo, sem saber que os olhares não eram de malícia, eram de nojo... Seu patrão era bicha, mas ela era gostosa e os clientes gostavam, fazer o quê?
Não fora trabalhar e, não obstante, ainda ficou com suas ‘amigas’ bebendo até 1 da tarde!
“Porra, tô com fome”.
“Vamo pegar um crack, a fome passa rapidinho. Ninguém tem grana viva pra comprar comida mesmo. Pega umas ‘pedra’ fiado lá no maluco, depois nóis dá um jeito de pagar”.
Foi... Voltou com oito pedras! Continuaram chapando até o fim da tarde, quando uma das meninas lembrou:
“Aí, gata, a gente tá saindo fora, pode crê? Ce num quis trampá mas nois tem que ir... Aqueles putos gosta é de piranha que chega cedo!”
Mais risadas!
Despediram-se... Foram-se! Mais uma vez, sozinha num buraco, sem dinheiro e ainda devendo 100 mangos de pó e 8 pedras de crack. Sem muita escolha, chorou até dormir. Acordou, chorou, acordou, chorou... 5:30 da manhã do dia seguinte estava na frente da padaria.
“Você está demitida. Vagabunda não trabalha em padaria de família”.
Ela ouviu seco as palavras que empurraram-na de volta pra casa... Conseguira passar mais uma semana limpa, arrependida... Mas sem emprego e vivendo do favor alheio: dinheiro emprestado, almoço filado em quitinete de travestis...
“Volta pra vida, mona, tira esse muleque logo! Quem manda não saber dar essa racha direito?”
Não dera importância aos ‘conselhos’... Arranjou outro emprego idêntico ao outro, só que numa lanchonete e dessa vez, além de balconista-faxineira-faz-tudo, ela ainda servia mesas.
Mas dessa vez, reergueu-se mesmo: nada de drogas ou cigarros ou bebidas... Alimentação saudável, incensos, pré-natal e o caralho à quatro! Devolveu o dinheiro que pegara emprestado, encheu satisfatoriamente a geladeira... Mas esqueceu-se – de propósito ou sem querer – da dívida com o trafica daquela sexta-feira maldita!
A vida seguira-se feliz. “Nos eixos”, como diria sua já falecida mãe... Oi-ta-vo mês de gravidez, que vitória! Aliás, esse seria o nome da menininha que salvara sua vida. Até que um belo dia, voltando tarde do serviço, encontrou nas ruas desertas o querido amigo traficante!
“Cadê minha grana, vagabunda?”
Havia sido um dia tenso pro cidadão: alucinado de pó e devendo grana pro distribuidor pica-grossa da região.
“Poxa, mano, agora eu não tenho, ó! Amanhã eu passo aqui e pago, prometo. São 100 pila e 8 pedra, né!?”
“Amanhã o caralho, eu preciso a-go-ra!”
“Mas eu não t...”.
Puf! Foi um só, na barriga... Desfecho? Atestado de óbito... Só mais um!

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sábado, 25 de abril de 2009

Pés.

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Ela andava por um rumo que parecia não levá-la a lugar algum. Apenas andava, gastando a sola dos pés que nunca se cansavam, nunca se doíam, nunca se calavam. A estrada não findava, nunca! E ela andava. Curvas, retas, lombadas, buracos... Estradas de chão cru!
O tempo inteiro com sol na face ou chuva nas costas... Não muito raro, chovia-lhe nos olhos também!
Às vezes os pés sangram... O asfalto carcome toda a sola, é inevitável. Mas ela continua andando, engolindo toda a dor, ignorando todo o rastro do sangue tímido que vai ficando pelo caminho, sabendo que, se der sorte, um pouco mais na frente vai encontrar uma lagoa na beira da estrada, pra se refrescar e aliviar os machucados dos pés. Na maioria das vezes, não lhe aparecem lagoas, ou mares, ou oceanos... Na maioria das vezes, o que lhe aparecem são poças d'água daquela chuva que o sol ainda não conseguiu secar. Dá-se por satisfeita e continua a caminhada, num silêncio tão barulhento que às vezes tem a impressão de estar acompanhada por pelo menos mais três pessoas. É que sua mente tinha vida própria, pensava por si só, fugia-lhe do controle. Eram quase duas pessoas diferentes! Talvez o fossem... Casos de personalidade múltipla são muito comuns nos dias de hoje!
Tinha um medo mortal de a estrada acabar enquanto ela ainda estivesse viva. Engraçado isso, já que a estrada não a levava a lugar algum. É que ela gostava de ficar ali, sempre andando, sem rumo, sem prumo, ouvindo as vozes e os passos leves de pés de quem sabe o que é a dor!
Sempre saía um tímido sorriso quando encontrava alguma sombra. Passava horas num deleite de se morrer dele! Sentava-se calma, satisfeita, olhava para o nada e permanecia imóvel, conversando em silêncio com seus eu's.
Mas aí cansava-se do marasmo, da quietude que a tomava! Tinha medo, essa é a verdade. Preferia desmanchar-se no asfalto quente, com os pés na carne viva, do que parar e, acomodada com a mansidão da sombra, resolvesse ficar sentada para sempre! Temia que alguém a alcançasse e quando percebia que havia demorado muito sentada à sombra, começava a correr, na vã tentativa de recuperar o tempo perdido, que nunca vai ser achado!
Andava, andava, andava. Tinha esperança de um dia achar seu rumo, quiçá o fim da estrada... Ledo engano: desmanchar-se-ia de tanto andar e não acharia o fim da estrada, porque ela nunca, nunca finda!!!
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.Arte: Desconhecida.

P.S.'s:

-É muita metáfora num só texto... Pouquíssimos hão de entender!

-O povo sumiu do blog... =/

sábado, 18 de abril de 2009

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Leave - Glen Hansard e Marketa Irglova*.

"Não posso esperar para sempre"
Foi o que eu disse antes de você se levantar!
Você não vai me desapontar...
Posso fazer isso sozinha!
Mas estou feliz que você tenha vindo,
Mas agora, se não se importa... !
Vá e liberte-se ao mesmo tempo.
Vá, vá!
Eu não entendo, você já se foi...
Eu espero que se sinta melhor agora que já acabou..
O que te levou tão longe?
A verdade tem um hábito de sair de sua boca!
Mas agora que isso veio, se não se importa, vá!
Vá e liberte-se ao mesmo tempo!
Vá, vá, solte minha mão!
Você disse o que tinha que dizer, agora vá!
*Com adaptações
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Arte: Chris Langstroth

P.S.: Sem P.S.'s dessa vez!

domingo, 12 de abril de 2009

Enfia a moral no cu!

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Arte: Orlando Pedroso.

...Porque quem já foi docemente apelidada de Dicha-Vana, Sá-Cana, Farmacinha e Versão-Feminina-de-Nelson-Gonçalves tende, realmente, a não valer lá muita coisa...!

P.S.'s:

-De antemão, preciso dizer que não estou indignada com nada. O título meio agressivo foi falta de criatividade mesmo.
-Estou encantadíssima com os acontecimentos do fim de semana. Um muito obrigada a todos que participaram, direta ou indiretamente, dos vários sorrisos que eu tive a oportunidade de mostrar, sem medo do que viria depois!
-Pra minha parceira do truco e da sinuca, fica um doce beijo, tão doce quanto o gosto daquele sorriso!
-Pro meu outro parceiro de sinuca do Ferrockstock, fica um 'foi um prazerzaço conhecê-lo. Espero, sinceramente, revê-lo para, talvez, terminarmos o que tão naturalmente foi iniciado!'
-Como não poderia deixar de faltar, uma pequena alusão às tosquices do Ferrockstock: Ronaldooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooo!!!!