domingo, 17 de maio de 2009

Uma pitada de seriedade nem sempre faz mal!

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Uma vez me disseram que compromisso é algo que deve ser levado à sério. E é mesmo, hoje eu sei! Só que as coisas, ultimamente, andam tão superficiais, tão momentâneas...
Melhores amigos são feitos e desfeitos e refeitos numa facilidade tamanha que até os inimigos têm se misturado ao hall dos inseparáveis! Engraçado isso... Num tempo em que dinheiro anda tão difícil, onde basicamente só o saldo bancário vale como pré-requisito e que, exatamente por isso, as pessoas deveriam apegar-se mais a amizades e amores, acontece o extremo oposto. As relações andam perdidas num caminho sem volta. E quem ainda insiste em apegar-se à compromissos e à 'sua palavra de honra' fica do lado de lá, sozinho, exposto a um sofrimento e a um esforço psíquico que não têm medidas! Fazer jus ao peso de suas palavras é uma questão de honra mesmo.
Entendam: não me refiro aqui à posturas monogâmicas ou a algum tipo de veneração-incondicional-frente-a-um-amigo... Refiro-me apenas ao fato de cumprir o que foi combinado ou prometido, coisa que não é tão difícil, ora bolas! Se não consegue seguir o que diz, não o faça! Palavras apenas, palavras pequenas, palavras ao vento ainda são passíveis de serem levadas à sério por quem ainda acredita na credibilidade alheia!
Uma pena, é esforço vão, jogado a esmo.
Alguns dirão: 'Ora, pra quê tamanho exagero? Essas coisas acontecem!'
Eu, no mínino, darei uma gargalhada-sabor-ironia. [Ironia é meu mecanismo de defesa... É melhor do que chorar!]
Se não se pode acreditar nem na palavra de quem está próximo, como confiar na palavra de quem você não conhece?
Os acontecimentos dos últimos dias levaram-me à tal reflexão que, por sua vez, revelou-se de importância-mor! Fizeram-me rever minhas perspectivas, minhas posturas, meus pressupostos. Mais uma vez, entendam: não estou aqui fazendo apologia à moral, tão pouco pregando algum tipo de postura a ser seguida. Estou apenas explicitando a minha opinião frente ao assunto.
Mas, enfim, são escolhas. Todos temos o direito de fazê-las, desde que tenhamos a consciência de que tais escolhas são intrínsecas às suas consequências. Não há linha, mesmo que tênue, que separe ambas, fato! Rezemos aos deuses do bom-convívio-social que todos sejam maduros o suficientes para entender essa realidade.
Fizeram suas escolhas... Pois bem, farei as minhas: contato eu não quero nem tão cedo. E tenho dito!

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sexta-feira, 1 de maio de 2009

Só mais um...

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As coisas se perderam, sumiram na imensidão de um espaço abarrotado de vazios. Esvaíram-se, viraram pó, simples como um passe de mágica.
Vraaap! De uma vez só esse pó todo foi reincorporado àquele corpo e junto com ele meia garrafa de Vodka barata e um maço de filtros vermelho. Missão cumprida: o vazio fora preenchido com o próprio vazio. Novamente sentira-se vibrar, mesmo tendo a face toda anestesiada.
Foi uma noite relativamente normal, não fosse pela esperança que subitamente dilacerou toda a cólera, todo o rancor, todo o nojo, todo o abandono... Lembrara-se de sua gravidez! Um sorriso franco, embora tímido, iluminou por um instante aquela quitinete apertada, munida apenas de uma cama, um guarda-roupa improvisado, um fogão, uma geladeira e um som, além do cheiro e do gosto de sexo que passeava livre por cada milímetro daquele antro de maus orgasmos, noites mal-dormidas, lágrimas engolidas à seco junto com conhaques, traçados e litros e litros de porra!
De súbito recordara-se dos dois abortos que fizera: superdosagem de calmantes com alguns socos na barriga no primeiro caso e citotec no segundo... Qual modo escolheria dessa vez? Mais um sorriso na face: a esperança voltara! Não se sabe por que diabos, decidira não tirar aquele filho... Mas o que faria? Quem seria o pai? Sobreviveria de quê se largasse a prostituição?
Primeiro passo: largar cigarros, bebidas e drogas... Olhou em volta e imaginou o desespero dançar na sua face: eram 60g da cocaína mais pura, duas carteiras de cigarro fechadas, meia garrafa de Vodka e cinco latinhas de cerveja na geladeira. O que fazer com tudo isso? Fumou a última carteira, tomou a última latinha, bebeu as últimas cinco doses da Vodka e cheirou as sete últimas carreiras – as mais grosas de sua vida. O que sobrou, deu a um velho mendigo que residia na marquise de seu prédio – talvez morasse lá há mais tempo que o próprio prédio. A cocaína, claro, vendeu pra um de seus clientes sujos! Nos primeiros dias que se seguiam, acordava sempre receosa, talvez arrependida: “Porra, o que eu vou beber agora?”.
Sobrevivera a primeira semana, a segunda... Durante esses 14-quase-15 dias, arranjou um (sub) emprego: 12 horas de segunda a segunda como balconista-faxineira-faz-tudo numa padaria. Havia largado seus antigos clientes, mudou de quitinete – pra uma mais barata, mais perto do emprego e mais limpa, uma vez que ao menos o cheiro de sexo não fora convidado para o novo recinto e a fumaça do cigarro fora substituída por incensos fortemente adocicados... Mas aí chegou a sexta-feira da terceira semana... Ela pre-ci-sa-va de cocaína, de álcool! Não agüentou: chamou três ex-colegas de profissão, que se encarregaram de levar as bebidas, enquanto ela foi imbuída de arranjar o pó. Cinqüenta ‘conto’ fiado, pra esquentar! Foram três carreiras de uma vez pra tremedeira ao menos diminuir. Cheiraram e beberam feito loucas...
O relógio marcava 03:27 a.m., o pó havia acabado e ainda lhes restavam meio litro de traçado e uma garrafa de whisky barato. Parênteses: puta não tem dinheiro pra nada, mas quando se fala em bebida e perfume, sai dinheiro até do cu!
Decidiu sair pra pegar mais pó... Mais cinqüenta ‘conto’ fiado... 04:30 da manhã, 05:00, 06:00, 06:30...
“Caralho, tenho que ir trampar”
Não conseguiria nem que quisesse... E não queria!
“Ah, depois eu me resolvo com o patrão... Ele sempre olha pra minha buceta de forma diferente mesmo.”
Riram sabe-se lá por quanto tempo, sem saber que os olhares não eram de malícia, eram de nojo... Seu patrão era bicha, mas ela era gostosa e os clientes gostavam, fazer o quê?
Não fora trabalhar e, não obstante, ainda ficou com suas ‘amigas’ bebendo até 1 da tarde!
“Porra, tô com fome”.
“Vamo pegar um crack, a fome passa rapidinho. Ninguém tem grana viva pra comprar comida mesmo. Pega umas ‘pedra’ fiado lá no maluco, depois nóis dá um jeito de pagar”.
Foi... Voltou com oito pedras! Continuaram chapando até o fim da tarde, quando uma das meninas lembrou:
“Aí, gata, a gente tá saindo fora, pode crê? Ce num quis trampá mas nois tem que ir... Aqueles putos gosta é de piranha que chega cedo!”
Mais risadas!
Despediram-se... Foram-se! Mais uma vez, sozinha num buraco, sem dinheiro e ainda devendo 100 mangos de pó e 8 pedras de crack. Sem muita escolha, chorou até dormir. Acordou, chorou, acordou, chorou... 5:30 da manhã do dia seguinte estava na frente da padaria.
“Você está demitida. Vagabunda não trabalha em padaria de família”.
Ela ouviu seco as palavras que empurraram-na de volta pra casa... Conseguira passar mais uma semana limpa, arrependida... Mas sem emprego e vivendo do favor alheio: dinheiro emprestado, almoço filado em quitinete de travestis...
“Volta pra vida, mona, tira esse muleque logo! Quem manda não saber dar essa racha direito?”
Não dera importância aos ‘conselhos’... Arranjou outro emprego idêntico ao outro, só que numa lanchonete e dessa vez, além de balconista-faxineira-faz-tudo, ela ainda servia mesas.
Mas dessa vez, reergueu-se mesmo: nada de drogas ou cigarros ou bebidas... Alimentação saudável, incensos, pré-natal e o caralho à quatro! Devolveu o dinheiro que pegara emprestado, encheu satisfatoriamente a geladeira... Mas esqueceu-se – de propósito ou sem querer – da dívida com o trafica daquela sexta-feira maldita!
A vida seguira-se feliz. “Nos eixos”, como diria sua já falecida mãe... Oi-ta-vo mês de gravidez, que vitória! Aliás, esse seria o nome da menininha que salvara sua vida. Até que um belo dia, voltando tarde do serviço, encontrou nas ruas desertas o querido amigo traficante!
“Cadê minha grana, vagabunda?”
Havia sido um dia tenso pro cidadão: alucinado de pó e devendo grana pro distribuidor pica-grossa da região.
“Poxa, mano, agora eu não tenho, ó! Amanhã eu passo aqui e pago, prometo. São 100 pila e 8 pedra, né!?”
“Amanhã o caralho, eu preciso a-go-ra!”
“Mas eu não t...”.
Puf! Foi um só, na barriga... Desfecho? Atestado de óbito... Só mais um!

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