sexta-feira, 5 de junho de 2009

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-E aí, Clarinha, quê que cê manda hoje?
-Me vê uma cerveja, por favor.
-Antártica?
-Anrãn.
-Quantos copos?
-Dois.
[Silêncio]
-Ah, e me vê 10 fichas de sinuca também!
-Pódeixá!
-Valeu, Chico.
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-E aí, preparado pra perder, meu caro Flávio?
-E desde quando tu joga sinuca melhor que eu, Clara?
-Aguarde e verá, companheiro! Tenho jogado to-do-san-to-dia!
-Ai, ai, viu!? Quer começar?
-Quero... Bola 13 na caçapa do canto!
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[Tacada bonita, forte, firme... Plaaaah! Bolas espalhadas, as ímpares estrategicamente perto das bocas e a 13... Na caçapa do canto!]
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-Ah, bonitinha, isso não vale. Você arrumou as bolas pra que as ímpares ficassem perto das bocas, né, safada?
-Ué, você deixou eu arrumar as bolas e ainda perguntou se eu queria começar. Burrice tua, parece até que é iniciante!
-Vátománocu!
-Até iria, mas fui embuída de ganhar umas partidas de sinuca de um viadinho! [Risos] Bora valendo as cervas?
-Demorô, franguinha escrota!
-Cê tá tão amoroso hoje. Posso parar de ganhar, se vc preferir.
-Toma tento, criatura, foi só uma tacada!
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[Tempos depois, décima segunda cerveja, décima fixa... 7X3]
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-Rá! Na sua cara, sua bichinha de merda! Vai ter que pagar as cervas!
-Ô guria cagada da porra. Tem três vidas que eu não sei o que é perder!
-Opa! Revanche?
-Tenho que ir nessa, ô aspirante a alcólatra! Tenho que me esforçar agora pra ter uma deliciosa noite de sexo com meu novo namoradinho. Fica aí, se gabando porque ganhou de mim! Cuidado pra não ficar pra titia, hein? Sorte no jogo...
-Vá se fuder, porra! Cê não quer é perder de novo! Nem mais umas fichinhas?
-Não, não, é sério mesmo, hoje é meu dia de ser passivo! A-do-ro!
-Então tá, né!? [Suspiro]
-Tu vai também?
-Não, vou ficar.
-Belê. Vou deixar tudo pago aí, a gente se fala depois.
-Tá.
-Beijo.
-Beijo.
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-Vai mais uma aí, Clarinha?
-Pó descer, Chicão.
[Silêncio]
-Me vê um traçado aí, também. Com 88, por favor!
-Prájá!
-Valeu.
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Na mesa, uma garrafa, dois copos, uma folha, uma caneta e um trecho de Nelson Gonçalves: "Sou apenas uma sombra que mergulha, num oceano de bebida, o seu passado!
Faço parte dessa estranha confraria do vermuth, do conhaque e do traçado...!"
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-Fecha tudo aí, Chico!
-Cinco conto pra tu, Clarinha!
-Taí, mano, valeu.
-Vem aí amanhã.
-Se tudo que eu tô planejando der certo, vou passar uns tempos sem vir aqui.
-Beleza então, qualquer coisa tamo aê.
[Dois segundos depois]
-Clara, tu deixou um papel na mesa.
-Opa, é besteira, pode jogar no lixo!
-Tanquilo.
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-Poxa vida, Flávio, meus pêsames! Jamais imaginaria que a Clara fosse capaz de uma coisa dessa!
-Cara, não dá pra acreditar... Eu joguei sinuca com ela ontem a noite. Puta que pariu, que merda! Porque ela não me falou nada antes...?
-Falou o quê, meu anjo?
-Nada não, coisa nossa, deixa pra lá!
-Vem cá, vem...
[Um abraço demorado, lágrimas, soluços...]
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No quarto de Clara, seu corpo estático, pendurado numa corda... O som estava ligado no repeat, com Emily Heines cantando sua triste The last page. Jamais imaginara sentir tamanha dor. Não pôde suportar o sofrimento de ver o grande amor de sua vida sendo traçado por um brutamontes qualquer...!
No chão, uma garrafa de vodka vazia, um cinzeiro lotado e uma carta, com um trecho de Caio Fernando:
"Éramos diferentes, éramos melhores, éramos superiores, éramos escolhidos, éramos mais, éramos vagamente sagrados. (...) Ando angustiada demais, meu amigo, palavrinha antiga essa, a velha angst, mas ando, ando, mais de duas décadas de convívio cotidiano... Tenho uma coisa apertada aqui no meu peito, um sufoco, uma sede, um peso... Ah, não me venha com essas histórias de atraiçoamos-todos-os-nossos-ideiais, eu nunca tive porra de ideal nenhum, eu só queria era (...) ser feliz, cara... Gorda, burra, alienada e completamente feliz, com você! Podia ter dado certo entre a gente, ou não, eu nem sei o que é dar certo, mas naquele tempo você ainda não tinha se decidido a dar o rabo(...).
Eu te amo, Flávio. Desculpe se não pude suportar tamanho sofrimento. Padeci à dor. Vê-lo assim, tão perto e tão longe, foi demais pra mim. Sempre quis tê-lo como meu homem. Desculpe, fui fraca. Um abraço apertado, da sua sempre amiga, Ana Clara."