quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Acordou num sobressalto, às 15 horas de um domingo sem-graça, com o trim-trim insistente do telefone do apartamento. Era Rui, com sua voz tímida e inconseqüente. Marcaram um encontro, às 20 h. Mas e agora, o que lhes restava? Estariam juntos, enfim! Anos e anos depois. Lágrimas e lágrimas depois. Sexos e sexos depois... Juntos dali a pouco, um do lado do outro, num bar qualquer, pra relembrar os velhos tempos. Que tempos? Não houveram tempos – pensou - houveram promessas não cumpridas e cabaços perdidos. Mentira! Houveram as lembranças também! Lembranças dos porres em vão pra esquecer, lembranças das putas pagas por boquetes mal-pagos, lembranças das brigas, dos foras, dos erros, das saudades, das dores – lembrou-se com tristeza!
Onze longos e tortuosos anos os separaram! Além dos anos, cigarros, conhaques, corpos, punhetas, lágrimas, feridas abertas, escancaradas, pulsantes! Conheceram-se no fim da adolescência, início de faculdade. Hoje, eram adultos maduros: um separado, com dois filhos; o outro solteiro desde sempre, sozinho no mundo, com seus diplomas e seus livros e seus cd’s e seus filmes e suas quaisquer-coisas-cult e seu arsenal de acessórios eróticos e suas viagens-de-trabalho e seu apartamento imenso, abarrotado até a tampa de uma solidão crônica.
"Não vai me contar como me achou, Rui?"
"Encontrei um velho amigo da nossa época de faculdade que havia trabalhado pra você em Londres. Ele me disse que você voltaria pro seu apartamento aqui do Brasil. Não foi difícil convencê-lo a me dar seu endereço... Menos difícil ainda foi conseguir o número do seu telefone e..."
"E o resto eu já sei. Você me ligou e nós marcamos um encontro. Pois bem, cá estamos! E depois de pelo menos 15 minutos de um silêncio mortal, eu te pergunto: o que você quer?"
"Calma, Dênis, eu só quero conversar."
"Ora, ora, que coincidência você me procurar pra conversar depois de onze, ON-ZE anos, justo depois que se separou da sua mulher!"
"Como sabe que eu me separei?"
"Isso não vem ao caso. Quero saber o que você quer de mim."
"Já disse, só quero conversar."
"Eu não tenho nada pra conversar com você!"
"E por que veio então?"
Silêncio. Sorriso vitorioso de Rui, aquele sorriso meio canto-de-boca que Denis tão bem conhecia. Encabulado, Denis acendeu um cigarro e Rui retomou a conversa:
"Para de me atacar... Só assim eu vou poder parar de me defender e vou poder conversar com você de..." Pigarreou e continuou, cabeça erguida: "De amigo para amigo."
"Are you kidding me?" Disse Denis, quase num grito. "Amigo pra amigo?"
"Sim, de amigo pra amigo!"
"Pois bem, conversemos então!"
Conversaram. Conversaram muito! Beberam. Beberam muito! Entre doses e sutis inícios de discussão, Denis foi se desarmando, se abrindo, deixando-se levar pela nostalgia! Na mesa de cinzeiros e copos, jogaram dores, prazeres, anseios, vergonhas, histórias... Eis que chegaram ao assunto que os unia e, quase num soluço, veio o lamento de Rui.
"Éramos jovens e eu não sabia de nada. Aaaah se você soubesse o quanto me arrependo de ter ido embora...!"
"Agora não adianta arrepender-se!"
"Não me culpe. Nós éramos jovens... Meus pais jamais aceitariam tudo aquilo. Eu não consegui segurar a pressão!"
"Não me venha com essa. Eu também era jovem e meus pais também não aceitariam. Aliás, não aceitaram! Eu contei tudo. Eu tentei ir atrás de você. Fui à sua casa, corri atrás e aí, o que eu descobri? Descobri que você tinha se casado, tinha ido embora pro interior pra não... Como foi que seu pai me falou mesmo? Ah, pra não cair-em-desgraça-de-novo!"
"Ah, Denis, se você soubesse... Se você soubesse o quanto eu chorei, o quanto eu sofri, o quanto eu morri nesses anos todos! Continuei o mesmo gay de sempre, só que casado com uma mulher que me deu duas filhas lindas! Continuei comendo machões enrustidos naquele interior sujo e preconceituoso! Continuei lembrando de você em cada dia da minha vida. Continuei procurando notícias suas em todo lugar. Continuei..."
"Chega, Rui, já passou! Isso é passado. Passado que eu há muito joguei no lixo."
Conversaram mais... Olharam-se... Sentiram-se... Mesmo de longe, mesmo tão perto! Dali a pouco, estavam bêbados, rindo às paredes, abraçando-se feitos dois antigos amigos de faculdade... O bar estava por fechar quando Denis pediu a conta. Pagaram. Levantaram-se. Despediram-se no estacionamento, cada um em busca do seu respectivo carro. Rui sentou-se no banco, pôs as duas mãos no volante e quase chorou, quando ouviu algo bater no vidro. Era Denis, ofegante.
"O que foi, cara, aconteceu alguma coisa?"
"Vamos lá pra casa comigo, é aqui perto, você vai me seguindo. Sua casa deve estar longe e você está muito bêbado."
Foram. Chegaram. Subiram. Denis tirou o tênis, a calça, a blusa... Deitou-se de cueca, como sempre fazia. Antes, mostrou a Rui o apartamento, disse onde era o banheiro, a geladeira, disse-lhe pra ficar à vontade e mostrou-lhe um sofá-cama imenso, "você dorme aqui, ta?! Boa noite"
Deitou-se. Rolou pra cá. Rolou pra lá. Quis levantar-se e dizer ‘eu te amo’. Quis vomitar. Quis chorar. Quis morrer. Em minutos, o sono e a embriaguez tomaram-lhe conta e, quando estava quase adormecendo, sentiu Rui deitar-se na cama e, com uma voz pecadora, arrependida, pacífica, livre, disse:
"Posso ao menos dormir abraçado com você?"
Perceberam que existem coisas que nem Deus, nem a distância, nem o tempo podem separar...

*Conto livremente inspirado no conto Pela Noite, de Caio Fernando.